Burnout – A Doença Silenciosa da Sociedade

Assim como computadores, nós, humanos, também somos suscetíveis à bugs. Sejam eles físicos ou emocionais. Hardware ou software. Mas, assim como em aplicações, um pequeno bug, uma falha na linha de comando, pode fazer com que todo o sistema físico do aparelho sofra avarias graves. Em nós, chamamos isso de “burnout”.

O termo em inglês significa literalmente “queimar”, mas seu significado prático indica esgotamento mental. Para alguns pesquisadores, o burnout é apenas mais uma forma de depressão no trabalho. Porém, dados os seus sintomas e como eles afetam todo o ecossistema onde a pessoa sofrendo de burnout se encontra, ele é muito mais.

Os primeiros sinais

Apesar de existir formalmente desde 1974 e estar registrada na OMS (Organização Mundial da Saúde) desde 1990, a primeira geração que tomou consciência da importância de estar atento aos sinais, foram os millennials. Essa atenção se deu no momento em que uma fatia dessa geração começou a sofrer fortemente com esse novo tipo de estresse.

Tim, um rapaz de 27 anos, contou à revista New York em 2018, sobre um episódio distinto em sua vida. “Eu tentei me inscrever para votar durante as eleições de 2016, mas eu já estava além do prazo no momento em que tentei fazê-lo”. Ele, juntamente com outros 11 jovens, conversaram a respeito do porque não iriam votar naquele ano.

“A quantidade de trabalho logicamente não é muito: preencha um formulário, envie-o, vá para o local específico em um dia específico. Mas esse tipo de tarefa pode ser difícil para mim, se eu não estiver entusiasmado com isso. Eu odeio enviar coisas por correio, me deixam ansioso”.

“Começou com uma ideia brilhante: eu cobrava US$ 1,00 de empresas para usar uma camiseta com seu logo” conta Jason Zook, empreendedor que encontrou uma brecha no sistema para colocar em prática sua ideia brilhante. Um dia ele estava sentado em seu closet, olhando para suas camisetas, quando teve um estalo: ele estava fazendo propaganda de graça para grandes marcas enquanto usava as camisetas na rua.

Foi assim que surgiu a I Wear Your Shirt. Em poucos dias, Jason duplicou seu valor e em poucos anos, chegou a faturar US$ 1M com sua empresa maluca. “Eu já estava atendendo pessoas, recebendo correio, emitindo notas, respondendo e-mails e lidando com 5 empregados. Tudo ao mesmo tempo”. Jason já estava trabalhando mais de 12 horas por dia para dar conta de tudo. “Eu deixei de ir ao casamento de um amigo para trabalhar em um sábado, porque eu construí esse ‘calabouço de carreira’ ao meu redor”.

O corpo de Cristina, 45 anos, já estava mostrando os primeiros sinais de que havia algo errado: frio na barriga, aperto no peito, desânimo e vontade de chorar. Por incrível que pareça, demorou um tempo até Cristina perceber que o gatilho para esses sinais era disparado conforme a hora de ir ao trabalho se aproximava. Em seu dia-a-dia, Cristina se deparava constantemente com pressão por resultados, comparação a colegas e assédios morais de todos os tipos.

Não demorou muito para que ela pedisse demissão. O problema foi quando ela percebeu que os mesmos sintomas apareceram em seu novo emprego, agora também em seus colegas: “Eu havia atingido meu limite. Não conseguia chegar perto da empresa porque entrava em pânico. Mas não era só eu, havia outros colegas, jovens de 20 anos, esgotados”.

Os primeiros sinais, nos três casos, são sutis: esgotamento mental, ansiedade, afastamento social. Alguns de nós, mais autoconscientes, param para analisar a situação: “o que está me causando esse sentimento?”. Mas o problema é quando a autoanálise termina com um resultado errado.

Os Efeitos Colaterais

Hoje, só no Brasil, 76,4% da população se automedica com frequência para poder seguir com suas rotinas diárias, entregando resultados e aguentando à pressão como a Cristina. Entre os principais medicamentos listados pela pesquisa feita pelo Instituto de Ciência Tecnologia e Qualidade (ICTQ), estão os analgésicos (16,5%) e remédios tarja preta e vermelha (8,2%).

A automedicação pode aliviar momentaneamente alguns dos sintomas relacionados ao burnout, como exaustão física e tensões, mas também pode causar dependência química. Naturalmente, o corpo humano evoluiu de forma a “se adaptar” à substâncias externas, não naturais do seu próprio sistema. Essa evolução é a responsável por nos fazer aumentarmos a dosagem de certos medicamentos à medida que os utilizamos com mais frequência. O ciclo vicioso de uso de medicamentos para se manter produtivo no trabalho pode ter uma repercussão negativa no decorrer do tempo, trazendo à tona exatamente o resultado oposto.

A exaustão, especificamente relacionada ao trabalho, é um dos grandes motivos de preocupação em todo o mundo. Hoje, o burnout já está presente no documento de referência de doenças usado pela OMS (Organização Mundial da Saúde), o ICD-10, desde a década de 1990. No documento, o burnout enquadra-se na categoria de “problemas relacionados a dificuldades de gestão da vida”.

Problemas associados à saúde mental no trabalho levam à queda de produtividade, que resulta na perda de US$ 1 trilhão anuais, em todo o mundo. Só no Brasil, segundo um estudo feito pela Escola de Economia de Londres em 2016, a depressão no trabalho faz o país perder US$ 63,3 bilhões ao ano. Estamos em segundo lugar no ranking de estresse no trabalho, atrás somente dos EUA, onde o burnout é considerado um problema de saúde pública.

Segundo a Pesquisa Carreira dos Sonhos 2018, até o ano de 2020 (ano que vem), a depressão, estágio final do burnout, será a principal causa de afastamento do trabalho no mundo inteiro. Atualmente, aqui no Brasil, cerca de 5,8% da população já sofre com depressão, sendo considerado o país líder de casos na América Latina.

Nosso país vem sofrendo muito com o esgotamento de profissionais em diversas áreas (principalmente áreas ligadas à interações intrapessoais). A Associação Internacional de Estresse estima que 32% dos profissionais sofram com o esgotamento do burnout no ambiente de trabalho. Só em 2016, 75,3 mil trabalhadores brasileiros foram afastados de suas funções por depressão. Esse grupo corresponde a 37,8% de todas as licenças médicas do país, o 3º principal motivo de afastamento.

Apesar de preocupantes, esses dados podem ser porta de entrada para soluções que melhoram não só a qualidade de vida, como também a economia do país. Principalmente e economia criativa.

O Tratamento Correto

Antes de mais nada: analise o seu momento. Gatilhos para o burnout existem aos montes, então é importante saber o que o está ativando para você. Se você é empreendedor, seu tratamento possivelmente será diferente do que o dos profissionais que possuem emprego com carteira assinada.

Mas como analisar o seu momento? Uma boa dose de autoconhecimento é necessária para isso. Em fevereiro, durante o Café Criativo aqui na Escola Caxias Criativa, tiramos um momento para meditarmos. Jogo rápido: 3 minutinhos respirando e entrando em contato consigo mesmo. Fazer as perguntas certas para encontrar a causa do problema. Com isso feito, você pode começar a escolher o que fazer.

Converse com seu gestor

Se você não é empreendedor, conversar com seu gestor a respeito do que está lhe incomodando é um bom começo. Se você não externar o seu problema, ninguém vai adivinhar por você, mas vão questionar o por que de sua performance estar baixa. Descubra o que está diminuindo seus resultados e leve até seu superior. Todos saem ganhando!

Converse com seu colaborador

Se você é o gestor do caso acima, saiba que pode ser ainda mais difícil lidar com problemas de saúde mental quando alguém que precisa de ajuda não pede. Se você vir um colega que parece estar angustiado ou se comportando de forma incomum, não assuma que ele está sofrendo de um transtorno mental. Um primeiro passo é conversar diretamente com o funcionário e verificar se ele está ciente de qualquer problema ou preocupação. Se ele disser que está sofrendo com algo, a empresa pode auxiliar a encontrar apoio e licença médica, se necessário.

Passe mais tempo com quem você gosta

Às vezes, passar tempo demais trabalhando ou pensando em trabalho pode ser muito ruim. O mindset de sprint é válido e necessário quando se está começando um negócio ou um novo projeto, mas levar ele como regra para sempre irá desgastar seu emocional e sua saúde mental. Reserve um tempo em sua agenda para se cercar de amigos e família e absorver um pouco da energia positiva que eles te trazem.

Tenha um hobby

Todos nós temos habilidades e talentos escondidos que não são utilizados no ambiente de trabalho. Encontrar uma forma saudável de extravasar essas habilidades é uma boa válvula de escape. Se você gosta de música, cogite aprender algum instrumento ou canto. Se você gosta de se expressar visualmente, experimente pintar, desenhar, atuar ou dançar. Ah, Spotify, Netflix e Youtube também podem ser considerados hobbies! Tudo que possa ativar partes adormecidas da sua mente vem bem a calhar nessas horas!

Leia

Largue um pouco os livros técnicos que você precisa ler para o trabalho ou para começar seu negócio. Vivemos em uma época onde livros técnicos são maioria nas livrarias e sites de livros. Então considere começar a ler um romance, alguma aventura ou até mesmo livros de auto-ajuda. Não tenha vergonha em dizer que está procurando ajuda na literatura, pois você pode encontrar alguém que também esteja lendo o mesmo livro que você! É uma ótima forma de criar conexões!

Não abuse!

Não procure extravasar com uso de substâncias que podem gerar dependência e nem procurar experiências que possam fazer você mascarar o que sente. Testes realizados no século passado mostraram que ratos com acesso ilimitado à heroína, não faziam uso da substância quando em ambientes saudáveis e sociais. Porém, quando encontravam-se em ambientes tóxicos ou “entediantes”, a overdose era quase sempre uma certeza.

Acesse os outros conteúdos da ECC sobre Burnout!

Esse é o primeiro Conteúdo Extenso que criamos aqui na ECC. Queremos te ajudar, todo o mês, a entender mais sobre algum assunto que tenha a ver com negócios e criatividade. Nossos Conteúdos Extensos sempre contarão com nosso Café Criativo, ECC Cast, Cine ECC e o artigo completo no Blog. Abaixo estão os links para os outros conteúdos do mês!

ECC Cast: O que é o burnout e como se livrar dele?

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Cine ECC: O que “Curtindo a Vida Adoidado” tem a ensinar aos empreendedores?

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Café Criativo: Você tem Síndrome de Burnout?

TESTE: Você sofre da Síndrome de Burnout?

Na Kombi com Vanessa: Leonardo Ferrolho

Na Kombi com Vanessa: Leonardo Ferrolho

Referências

https://wanderingaimfully.com/

https://wanderingaimfully.com/iwearyourshirt/

https://qz.com/work/1355018/how-to-talk-to-your-boss-about-mental-health/

https://www.anamt.org.br/portal/2018/05/30/o-que-e-sindrome-de-burnout-e-quais-as-estrategias-para-enfrenta-la/

https://www.buzzfeednews.com/article/annehelenpetersen/millennials-burnout-generation-debt-work

http://nymag.com/intelligencer/2018/10/12-young-people-on-why-they-probably-wont-vote.html

https://www.nytimes.com/2018/05/14/smarter-living/your-best-tips-for-beating-burnout.html

https://www.nytimes.com/2017/09/05/smarter-living/workplace-burnout-symptoms.html

https://drauziovarella.uol.com.br/doencas-e-sintomas/sindrome-de-burnout/

https://www.ictq.com.br/pesquisa-do-ictq/353-indicacao-de-amigo-reforca-a-pratica-da-automedicacao

http://g1.globo.com/sp/bauru-marilia/especial-publicitario/medecell-do-brasil/desligue-a-dor/noticia/2016/08/automedicacao-e-pratica-comum-em-mais-de-90-da-populacao.html

https://www.nytimes.com/2017/09/05/smarter-living/workplace-burnout-symptoms.html

Joe Guidini

Joe Guidini

Diretor de Comunicação e Storytelling na Escola Caxias Criativa.

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